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SouJava Fevereiro 2026: Liderança, Carreira e Green Software

Resumo do meetup do SouJava realizado em 11/02/2026 no escritório da Oracle em São Paulo — três palestras sobre a transição de Dev para Tech Manager, como ser encontrado no início da carreira e como escrever código Java sustentável.

Resumo do meetup do SouJava realizado em 11/02/2026 no escritório da Oracle em São Paulo — três palestras sobre a transição de Dev para Tech Manager, como ser encontrado no início da carreira e como escrever código Java sustentável.

Na última quarta-feira participei da edição de fevereiro do meetup do SouJava, no escritório da Oracle em São Paulo. Três palestras, pizza e aquele tipo de conversa honesta que só acontece quando a comunidade Java se encontra presencialmente. Aqui vai o que eu levei de aprendizado.

A programação

HorárioPalestrantePalestra
19h00Alaydes MoraisDe Dev Java a Tech Manager
19h45Guilherme SilvaCurrículo, LinkedIn e Java: Como Ser Encontrado no Início da Carreira
20h15Leandro MarquesGreen Software: Desempenho em Aplicações Java para o Futuro Sustentável

Palestra 1 — De Dev Java a Tech Manager (Alaydes Morais)

Alaydes Morais palestrando no SouJava

Alaydes é Regional Manager na Datadog, ex-diretora na Oracle, e tem quase 18 anos em tecnologia — cerca de nove em gestão. Começou a programar em Java aos 14 anos em Teresina, Piauí, e abriu a palestra dizendo que tanto a trilha de IC (Individual Contributor) quanto a de gestão são válidas — e que ICs no nível Staff/Principal podem ganhar tanto quanto diretores.

Principais aprendizados

  • Tenha um “sonho grande”. Quando ela perguntou à plateia quem tem um propósito claro guiando a carreira, menos da metade levantou a mão. Sem direção, você deixa outras pessoas pilotarem sua trajetória.
  • Encontre alguém para admirar. Estude o que essa pessoa fez — certificações, comunidades, decisões — e use como referência, não como modelo rígido.
  • “Espíritos de luz” vs. “almas cebosas”. Ela divide as pessoas de qualquer empresa em mais ou menos 50–50: quem compartilha conhecimento e eleva os outros versus quem retém informação e puxa o tapete. Se quiser liderar, precisa ser do primeiro tipo — e treinar outros para serem também.
  • Liderança é um conjunto de habilidades aprendíveis, não um dom nato. Empatia, feedback, inteligência emocional — tudo treinável. Ela mesma não era naturalmente empática e teve que trabalhar muito isso.
  • Pare de codar, comece a habilitar. A parte mais difícil da transição é largar o teclado e aceitar que você deve contratar pessoas melhores que você. O ego que diz “eu faço mais rápido” precisa morrer.
  • O líder é o Garbage Collector. Seu trabalho é identificar e remover bloqueios na daily — não apenas ouvir e acenar. Se você acumula bloqueios e não faz nada, não serve para nada.
  • Lidere pelo exemplo. Se você diz que o time não deve trabalhar depois das 18h, você não pede para ninguém trabalhar depois das 18h. Ponto.
  • Dê crédito. Nunca assuma o mérito pelo trabalho do time. Ela destacou que em sete anos nunca perdeu um membro do time — alguns até a seguiram para novas empresas.

Ela encerrou com histórias reais intensas sobre demitir uma mãe de cinco filhos que se jogou nos seus pés implorando, e sobre um ex-funcionário que vandalizou o escritório após a demissão. A mensagem: liderança exige resiliência emocional séria. Se sua cabeça não estiver preparada, não entre na gestão só pelo aumento de salário.

Conselhos práticos para aspirantes a líderes: voluntarie-se para coordenar projetos ou comunidades no trabalho, faça análise SWOT de líderes que admira, construa um PDI (Plano de Desenvolvimento Individual) com datas e métricas, e invista em comunicação — aulas de teatro, submissão de talks em conferências e (sim) terapia se necessário.


Palestra 2 — Currículo, LinkedIn e Java: Como Ser Encontrado no Início da Carreira (Guilherme Silva)

Guilherme Silva palestrando no SouJava

Guilherme trabalha no time de Talentos do grupo Alura/FIAP, focado em empregabilidade. Essa foi a primeira palestra dele em conferência — um ótimo exemplo de como comunidade impulsiona crescimento.

Dicas de currículo

  • ATS é real. Sistemas como GUPY e Solides ranqueiam currículos por correspondência de palavras-chave com a descrição da vaga. De aproximadamente 500 candidaturas, apenas umas 10 são bem estruturadas.
  • Mantenha simples. Layouts de duas colunas e fotos quebram o parsing do ATS. Use formato de coluna única.
  • GitHub conta como experiência. Se você não tem emprego formal, seus projetos e contribuições open-source vão na seção de Experiência Profissional.
  • Adicione uma seção de Competências no final como rede de segurança de palavras-chave — o ATS lê o documento inteiro.
  • Carga horária importa. Um curso de 60 horas parece muito mais substancial que um de 2 horas. Seja estratégico no que lista.
  • Duas páginas tá ok para nível pleno/sênior; só garanta que cada linha mereça estar ali.
  • Use o ChatGPT para adaptar seu currículo a vagas específicas — espelhe a linguagem delas.

Dicas de LinkedIn

  • A busca do LinkedIn funciona como ATS. Recrutadores usam filtros booleanos ("Desenvolvedor Java" AND "Júnior" AND "Spring Boot"), e os perfis mais bem estruturados aparecem primeiro.
  • Otimize seu título. Use a fórmula presente → futuro → habilidades. Exemplo: “Atualmente estagiário → aspirante a desenvolvedor backend → Java, Spring, Hibernate, Microservices.”
  • Conecte-se estrategicamente. Engenheiros seniores, recrutadores e líderes de comunidade — não apenas pares do mesmo nível.
  • Busque recrutadores proativamente. Muitos postam oportunidades no feed pessoal, não no painel de vagas. Uma mensagem direta criando conexão pessoal ajuda na triagem.

Encerrou com a frase de Reid Hoffman: “A oportunidade não aparece — você cria.”


Palestra 3 — Green Software: Desempenho em Aplicações Java para o Futuro Sustentável (Leandro Marques)

Leandro Marques palestrando no SouJava

Leandro é Senior Staff Software Engineer no Banco Santander. Sua foi a palestra mais técnica da noite e a que fez todo mundo prestar mais atenção.

O caso de negócio

  • Green Software = software eficiente. Se seu código é eficiente, você automaticamente está alinhado com as metas de sustentabilidade ESG, economiza dinheiro da empresa em infraestrutura, e fica bem fazendo isso.
  • ESG (Ambiental, Social, Governança) é gerenciado no nível executivo em grandes empresas. Green IT é um subconjunto disso — e o desenvolvimento de software sustentável é uma peça desse quebra-cabeça que todo desenvolvedor pode dominar.

O mergulho técnico

Ele apresentou um cenário real de produção:

  1. Um microserviço retornando usuários por ID usava LinkedList com 500 usuários → 291 TPS em um único pod (1 core, 1 GB RAM). Aceitável.
  2. A base de usuários cresceu para 5.000 e depois 10.000 → performance desabou para 11 TPS por pod, exigindo 25 pods para manter a vazão.
  3. Causa raiz: LinkedList.find() é O(n). Combinado com um loop, a API estava rodando em O(n²).
  4. Solução: Trocar para HashMap (O(1) via função hash). Mesmos 10.000 usuários → 407 TPS em um único pod com ~25% de uso de CPU.

Uma troca de estrutura de dados eliminou 24 pods. Multiplique pelo custo por pod e você economiza centenas de milhares de reais por ano.

Além das estruturas de dados

  • SQL ruim (SELECT * FROM), pools de conexão mal configurados e endpoints sem tuning — tudo aumenta CPU, energia e custo.
  • Tunagem de framework importa — não precisa abandonar Spring ou Quarkus. Ajustar pools de conexão e desabilitar funcionalidades não utilizadas gera ganhos significativos. Para contextos de latência extrema (ex: B3), alguns times trocam JPA por JDBC puro.
  • Trade-offs com segurança: adicionar validações vs. performance é uma decisão do negócio, não do desenvolvedor sozinho.

Recursos

  • A associação Green IT realiza conferências regulares (a próxima em abril no Rio de Janeiro).
  • Estudar para certificação Java força você a entender a fundo o framework de Collections — que é exatamente onde esses ganhos de performance residem.

Destaques da comunidade

  • Felipe César (Oracle) apresentou o OCI Free Tier (2 VMs, 4 CPUs, 24 GB RAM, 20 GB de autonomous database — gratuito para sempre) e o novo programa de mentoria de 6 meses do Oracle ACE, que será lançado no evento Oracle for Communities no WTC Morumbi.
  • SouJava agora está presente em 5 cidades, ativo no Discord com Java Champions como Bruno Souza e Otávio Santana, e contribuindo para as specs do Jakarta EE (Jakarta Data e Jakarta NoSQL).
  • Próximo meetup: 18 de março de 2026.

Assista ao meetup

Assista à gravação do evento no YouTube


Considerações finais

Três palestras bem diferentes, todas orbitando a mesma ideia: o valor de um desenvolvedor Java vai muito além de escrever código que compila. Seja refatorando uma LinkedList para um HashMap, assumindo a liderança de um time, ou simplesmente formatando seu LinkedIn para ser encontrado — a diferença está na intencionalidade.

Se você está em São Paulo e ainda não participou de um meetup do SouJava, o próximo é em março. Apareça. Só a pizza já vale a pena.

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